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Música Refletor

Ninguém sabe o duro que ele deu: Wilson Simonal marcou a Música Popular Brasileira

[caption id="attachment_4589" align="aligncenter" width="640"]Foto: Divulgação Foto: Divulgação[/caption]

Em 2017 completa-se 17 anos que a Música Popular Brasileira perdeu um de seus grande ícones: Wilson Simonal. Responsável por trazer para o País inovações, como a participação da platéia nos shows, Simonal, ou melhor, Simona, como era carinhosamente chamado, deixou um marco na história da música brasileira.

O artista foi polêmico e intenso. Com seu jeito de ‘malandro’ e voz privilegiada arrastou multidões, ao som de chá-chá-chá, calipso e bossa nova. Entre seus maiores sucessos estão "Tributo a Martin Luther King", "Sá Marina", “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Nem Vem Que não Tem", "Balanço Zona Sul", “Meu limão, meu Limoeiro” e "País Tropical", de Jorge Ben.

Além disso, Simona defendeu o direito racial e foi tema do documentário “Ninguém sabe o duro que dei”, dirigido por Micael Langer, Calvito Leral e Cláudio Manoel em 2009. O cantor tornou-se referência para muitos brasileiros.

Wilson Simoninha, filho mais velho do artista, enxerga o pai não apenas como uma referência do segmento, mas como alguém que quebrou barreiras na MPB, trazendo, pela primeira vez, cenas nunca vistas antes no Brasil e que permanecem até hoje, como a participação do público nos shows. “Ele era um grande cantor, um showman”, afirma Simoninha.

Também músico, Simoninha conta que teve o privilégio de conhecer os dois lados da história: o Simonal dos palcos e aquele do backstage. “Estar ali atrás, poder conviver assistir e ver o espetáculo antes das cortinas se abrirem é uma experiência muito boa. Mas quem via aquele Simonal irreverente do palco não imaginava o homem tímido que vivia por baixo daquela presença”, revela.

Simonal deixou não apenas uma legião de fãs de suas canções, mas também uma marca, um estilo, uma referência para gerações futuras de artistas. Além dos filhos músicos, Max de Castro e Simoninha, seu legado alcança também outros membros da classe.

Dimi Zumquê, músico e produtor musical, de 49 anos, pôde acompanhar parte da carreira do cantor. Acostumado a ouvir suas músicas desde criança, quando jovem, aumentou seu interesse por Simonal. “Além de ter uma bela voz, imprimiu uma marca registrada nas canções que interpretava, executando-as com muito balanço e alegria, além de suas performances de palco, que eram ótimas”, diz.

Demonstrando sua admiração Dimi já interpretou em seus shows algumas canções que ficaram célebres na interpretação de Simona, como “Sá Marina”, “Nem vem que não tem” e “Meu limão, meu Limoeiro”.

História

Nascido no Rio de Janeiro, em 1939, Wilson Simonal de Castro começa suas apresentações musicais ao servir o exército, cantando nas festa do regimento. Mais tarde, os shows fora do quartel chamaram a atenção do produtor e compositor Carlos Imperial. A partir daí começa sua carreira profissional, lançando em 1963, pela gravadora Odeon, o LP “Wilson Simonal tem algo mais”. O disco trazia sucessos da bossa nova como “Telefone” e “Menina flor”, colocando seu swing e dando resultado diferenciado as canções. No ano seguinte, o cantor lançou o álbum, intitulado  “A nova dimensão do samba”, desta vez com “Só saudade”, “Nanã” e “Inútil paisagem”.

No primeiro semestre de 1965, nasce o terceiro LP de Simona: “Wilson Simonal”, com canções de Ary Barroso, Tom Jobim e Carlos Lyra. Mas foi 1966 que a carreira do cantor explodiu de vez. Depois de gravar “Mamãe passou açúcar em mim”, com letra humorada que remetia ao assédio das mulheres, o artista colocava em evidencia toda sua ‘pilantragem’, como ele mesmo intitulava seu jeito malandro. Outras músicas como "Carango" e "Meu Limão, meu Limoeiro", consagraram de vez o talento do carioca. A partir daí o sucesso cresceu tanto que ele ganhou um programa de televisão: “Show em Si... Monal”, na TV Record.

Outro marco de sua carreira vem mais tarde, quando Simona coloca o Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, lotado para cantar com ele, fazendo com que suas canções fossem interpretadas em duas vozes: a sua e a do público. “O magnetismo de Simonal era impressionante, a ponto de ele reger o Maracanãzinho lotado, sozinho, na versão incrível de “Meu limão, meu limoeiro”, as pessoas simplesmente não o deixavam sair do palco. Esse poder de entretenimento é o sonho de todo artista. Isso tudo, com muita qualidade musical”, comenta Dimi Zumquê.

Tamanho seu sucesso que, em 1970, o cantor fez um dueto com uma das rainhas do jazz, a cantora Sarah Vaughan, transmitido pela TV Tupi na época. Juntos interpretaram “Oh happy days” e “The shadow of your smile”. Mas foi neste ano também que os problemas que levariam Simonal ao ostracismo começaram.

O Incidente

Um fatídico incidente coloca em declínio o sucesso e a carreira de Simonal. Em setembro de 1970, quando a Simonal Produções Artísticas completaria um ano, um balanço foi realizado na empresa, e então o artista percebeu que havia um desfalque em seu patrimônio. Desconfiado de seu contador, demitiu-o gerando uma ação trabalhista.

Chateado por ter perdido boa parte de seu patrimônio e vendo seu sucesso e prestígio ruírem, Simona recorreu a agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social utilizado, durante o Regime Militar de 1964) que havia conhecido quando interrogado em 1969 por conta de uma bandeira da União Soviética  em um de seus shows.

Os policiais torturaram o contador até que ele assumisse o desfalque. Porém, uma queixa da esposa do contador à polícia fez com que Simonal fosse chamado a depor. Neste depoimento, o cantor declarava-se como  "antigo colaborador do DOPS" e "divulgador do programa democrático do governo da República". O material foi enviado à imprensa.

A história se espalhou e muita gente, principalmente do meio musical passou a ignorar Simonal. Seu sucesso já era mais o mesmo. Em agosto de 1971, após gravar “Joia, Joia”, primeiro trabalho sem sua antiga banda Sim Três, a repercussão não foi a esperada. Simonal perdeu então o contrato com a Gravadora. “Tudo aconteceu no auge da Ditadura Militar. Meu pai acabou sendo usado como um bode espiatório”, diz Simoninha.

“O fato de um negro ter assumido o posto de maior artista brasileiro, no final da década de 60, acredito ter incomodado, mas ele contribuía para essa aversão, desfilando em carrões sem capota, com louras estonteantes na Av. Atlântida, posando de bacana mesmo. Não era santo, mas acho que aproveitaram a hipótese da suposta associação para ‘fritá-lo’”, acredita Dimi.

Em 1972, em uma nova gravadora, o cantor lançou “Se Dependesse de mim”, mas a fama de delator impediu a boa repercussão. Assim, o artista foi afastando-se cada vez mais dos palcos, deixando de lado todo talento e presença que o tornaram este ícone lembrado até hoje. Nem sua versão de “País Tropical” e os compactos lançados na década de 80 fizeram com que sua carreira ganhasse força novamente.

“Costumo pensar que ele foi vítima da sua própria inocência, usado como bode expiatório. O que fica de seu legado, sua lembrança maior é o swing brasileiríssimo, a malandragem, ou melhor a "pilantragem" como ele mesmo dizia. Dono de uma voz maravilhosa e de uma elegância ao abrir a boca, Simonal é arte pura, e ninguém sabe o duro que ele deu pra chegar lá”, diz Vinicius.

O fim

Com o correr dos anos Simonal foi tornando-se alcoólatra e perdendo gradativamente sua capacidade vocal. Em março de 2000, o artista fez seu último show. Já não era mais o Maracanãzinho, mas sim um bar em Moema (SP). Dias depois foi internado na capital paulista e faleceu de cirrose hepática no dia 25 de junho de 2000.

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